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quinta-feira, 27 de junho de 2019

Santos Dumont (5): o balão e a tempestade

Santos Dumont (5): o balão e a tempestade 

O que o movia? O que sentia o nosso voraz leitor de Júlio Verne? Declarou certa vez que
deu-se conta de que a navegação aérea colocava desafios que a literatura ficcional do romancista não
permitia entrever. Os registros e livros deixados por Santos Dumont nos revelam algo
de suas expectativas e aventuras. No livro 'Os meus balões' retrata algo do que experimentou
a bordo do Balão Brasil durante voo noturno. Vale conhecer, a tradução do francês para o português
é de A. de Miranda Santos:

"Não atendendo a ninguém parti conforme havia deliberado. Em breve, lastimei-me da minha temeridade (...)
Achava-me só, perdido nas nuvens, entre relâmpagos e ruídos de trovões; e a noite se fechava em torno de mim.
Eu ia, ia, nas trevas. Sabia que avançava a grande velocidade, mas não sentia nenhum movimento. Ouvia e recebia
a procela e era só. Tinha consciência de um grande perigo, mas este não era tangível. Uma espécie de alegria selvagem
dominava os meus nervos (...) Lá no alto, na solidão negra, entre o fulgor de relâmpagos que a rasgavam e
o faiscar, eu me sentia como parte integrante da própria tempestade (...) falo desta aventura porque foi objeto
dos comentários dos jornais, e porque serve para mostrar que a aeroestação à noite é perigosa mais na aparência
do que na realidade"
(Santos Dumont. Os meus balões. Trad. A. de Miranda Santos. Guanabara: Ed. do Exército, 1973, pp. 102-03)

O episódio narrado teve lugar em 1900, estávamos frente a uma grande virada. Desde as grandes navegações dos séculos
XV e XVI, as narrativas de viagens fizeram do mar o grande desafio: História Trágico-marítima de Gomes de Brito ou Moby Dick
de Herman Melville, entre outros. Agora, às portas do XX, o ar (o céu) abria-se à aventura. A viagem acima retratada foi
feita a bordo do pequenino balão esférico que iniciou a vida areonáutica de Dumont - o Brasil - agora, era preciso
deixá-lo para trás e começar os trabalhos que culmirariam na dirigibilidade plena.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Santos Dumont (4): as lições do Balão Brasil

Santos Dumont (4): as lições do Balão Brasil

A fabricação do Balão Brasil diz muito sobre as maneiras do jovem Dumont estudar
e trabalhar. Sabemos pelo próprio Santos Dumont que ao chegar buscou em livrarias
tudo que havia sobre engenharia de motores e de aeronáutica. Contratou professores
que pudessem ser de alguma ajuda para em sua formação.
Ele tinha certeza que a vida na sua fazenda do pai cafeicultor não era suficiente.
Se cedo sabia como funcionavam máquinas de ferro que levavam o café de uma área a
outra, se a sua família estava entre as primeiras proprietárias de carro a combustão
no Brasil. Tudo isso, sabia muito bem, o capacitava, mas era preciso saber mais.
Santos Dumont queria aprender e o seu método era a aplicação aliada à disposição
livre de amarras, sabia que no campo da engenharia de motores e da aeronáutica, rever e reavaliar
de forma constante os projetos era indispensável.
Santos Dumnont nadou contra a corrente do estabelecido naqueles dias e colheu os frutos
de suas visões e projetos. A sua maneira de trabalhar revelou-se acertada e proveitosa.
O Brasil, país natal, não sabia ler, aliás, ainda não gosta de ler. O livro 'Os meus
balões', escritos em francês, em 1904, revela muito do homem e do inventor, do sonhador
e do empreendedor. Por que escreveu em francês? Estavam ali os seus ajudantes e os seus
professores, as oficinas e os mecânicos, os campos de pouso e as escolas aeronáuticas.
O Brasil pouco ou nada lhe oferecia. Certa vez, já piloto e inventor consagrado,
em conversas com autoridades aéreas do país indicou-lhes questões a serem tratadas para cuidar do futuro
da aviação no país. Santos Dumont reconhecido mundialmente não era voz ativa nas rodas
brasileiras. A primeira edição francesa de 1904 foi seguida de outra, ainda no mesmo ano,
em língua inglesa. Não à toa, França, Inglaterra e Estados Unidos, voltaram a sua atenção
para o lugar da aviação no século XX e o reinventaram. Eles entenderam a revolução que estava em curso, o Brasil traduziu  o livro que revolucionou a maneira de pensar a conquista do ar em 1938.

Santos Dumont (2): O Balão Brasil, o laboratório

Santos Dumont (2): O  Balão Brasil, o laboratório



De estudante a inventor, de homem devotado à pesquisa e à experimentação ao título de pai da aviação, esta é a sua trajetória em terras brasileiras e francesas. O percurso de nosso engenheiro nos ares começa com um balão de tipo esférico, usual naqueles dias. Balão de seis metros de diâmetro e carregado de hidrogênio, realizou o seu voo inaugural no dia 4 de Julho de 1898, foi batizado por Santos Dumont com o nome de Brasil. Serviu como escola para o nosso inventor, o Brasil realizou mais de 200 ascensões nos meses seguintes. O Brasil permitiu o estudo de correntes de ar, dinâmica de voo e aerodinâmica. Santos Dumont aprendia a voar.



(continua)

Santos Dumont (1): o motor de combustão interna

Santos Dumont (1): o motor de combustão interna

O homem de gênio sabe valer-se daquilo que tem ao alcance de suas mãos. O motor de combustão interna transformava a sociedade, tratava-se de um motor pequeno se comparado aos movidos a vapor e aos elétricos, no entanto, se era menor revelou-se mais forte. O chamado motor de combustão externa, a partir de agora, veria o seu uso ser reduzido.

Santos Dumont não era o seu inventor, todavia, percebeu que as dimensões menores e a capacidade de força do motor de combustão interna poderiam servir aos propósitos das máquinas de voar.

A percepção aguda e a disposição para criar eram a sua natureza.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Santos Dumont (3): O Balão Brasil

Santos Dumont (3): O Balão Brasil

O jovem Dumont, emancipado pelo pai e com recursos que lhe permitiam viver, estudar e contratar serviços na cidade de Paris,
preparava-se para voar. A Paris dos primeiros anos do século XX tinha os céus povoados de balões, era possível alugar balões
e realizar passeios. O jovem Dumont chegava encantado com a literatura de Júlio Verne e julgava que encontraria sociedade que
comungava das mesmas expectativas, logo percebeu que Verne era notável romancista e havia distância considerável entre a narrativa
do mundo de máquinas submarinas e aeronátucas descritas por Verne e o mundo real de oficinas e de experimentos.
Deu-se conta de que havia muito trabalho para que os voos fossem populares e seguros. Graças aos recursos que trazia começou os seus estudos.
Balão Brasil foi a sua primeira criação. Logo estranhou-se com os fabricantes da época. Era possível contratar a fabricação de balões, todavia,
logo os fabricantes perceberam que Santos Dumont era estudioso e não tinha medo de refazer e recriar as suas ferramentas, conceitos e projetos. Preparou-se,
estudou e pediu que lhe construíssem o Brasil. Rompeu regras estabelecidas e encomendou balão de dimensões tão pequenas que muitos
recusaram-se à fabricação, afirmavam que o balão não voaria. Outros, o ridicularizaram, viam o diminuto balão como exotismo do
jovem brasileiro.

(continua)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Santos Dumont (10): O Número 1, o primeiro dirigível

Santos Dumont (10): O Número 1, o primeiro dirigível

Se o Balão Brasil, em grande parte, foi construído com peças disponíveis no crescente mercado de balões da sociedade francesa, o No. 1 pedia a fabricação de peças, desta forma, percebia-se que o Sr. Santos Dumont cumprira o período de formação e de aprendizado, agora, estava em condições de avançar de forma sensível. O No. 1 exibia formato distinto, Santos Dumont assumiu a forma cilíndrica e trouxe inovações: confeccionou o seu dirigível usando a seda, abandonou os cordames, que, até então amarravam e uniam o corpo do dirigível à nacele. O cordame não mais contornava balão,  conseguiu, assim, aliviar de forma sensível o peso, a partir de costuras na parte inferior do dirigível que permitiram que a nacele fosse fixada a partir de hastes à barriga do dirigível.

domingo, 21 de agosto de 2016

Santos Dumont (9): O mito de Ícaro

Santos Dumont (9): O mito de Ícaro

Eu preferia Dédalo, aos meus olhos, deveria caber ao pai o privilégio de ser rememorado como aquele que deu asas ao homem. Engenhoso, Dédalo concebeu o par de asas e foi ajudado pelo filho. De alguma maneira, a tragédia de Ícaro cativou a sociedade da época. O filho que ajudou o pai na confecção do par de asas ganhou relevância aos olhos daqueles que recuperaram e recontaram o mito. Sobretudo porque Ícaro desejou ir além, ganhou os céus e deixou a ilha para trás, todavia, o Sol encheu-lhe os olhos de desejos e, o filho do engenhoso Dédalo, quis mais. A limitação das asas perdeu sentido frente a um homem que descobria que voava e podia ir mais longe. O Sr. Santos Dumont sonhou o voo, mas, diferentemente, de Ícaro que sonhou acima de tudo o seu próprio voo, o Sr. Dumont sonhou o voo de todos os homens.


O tema da queda nas artes pictóricas, por exemplo, nos ajudam a acompanhar a eleição de Ícaro. O pintor Peter Paul Rubens, no século XVII, reservaria lugar para Dédalo e Ícaro, logo mais, a expressão de medo e horror do filho ao centro do quadro passaria a ser a escolha temática, a escolha mítica. 

(continua)

sábado, 20 de agosto de 2016

Santos Dumont (8): O mito de Ícaro

Santos Dumont (8): O mito de Ícaro

As mitologias gregas ganharam revigorada presença nas sociedades da Europa Ocidental, ressurgidas com o Neoclássico e a onda de estudos arqueológicos, literários e filosóficos em voga. A mitologia grega servia para ler e inspirar, de certa forma, tal como nos tempos homéricos, heróis e deuses habitavam o imaginário de sociedades como a francesa. Agora, os enredos helênicos moviam-se por entre homens e mulheres de sociedades tecnológicas dos séculos XIX e XX.
Ícaro, filho de Dédalo, era alguém a ser lembrado pelos que enfrentavam a navegação aérea. Dédalo, homem de engenho, construíra para o Rei da Ilha de Creta uma prisão. A prisão deveria abrigar uma aberração, um monstro. A prisão deveria abrigar o Minotauro, homem e touro em um mesmo corpo. A prisão e a aberração que ela deveria abrigar foram, no entanto, derrotadas pelo herói grego Teseu. Dédalo, a propósito, foi responsabilizado pelo Rei de Creta pela destruição do monstro e da perda da prisão. Foi condenado a viver exilado ao lado de seu filho em um ilha. Dédalo levava os seus dias a buscar uma maneira de escapar. Concebeu e construiu um par de asas. Decidiu-se pela construção de uma estrutura de madeira recoberta de penas presas por cera. Estava aberto o caminho e meio para a fuga. Pai e filho alçam voo, ganham altura e logo deixam a ilha do exílio. Dédalo recomendara ao filho que não voasse próximo ao Sol, do contrário as asas poderiam derreter. Ícaro não lhe deu ouvidos, voou em direção ao Sol e viu as suas asas serem desmanchadas pelo calor. Abatido pelo Sol, Ícaro caiu no mar.

(continua)

Santos Dumont (7): dimensões do Balão Brasil

Santos Dumont (7): dimensões do Balão Brasil

Balão esférico de pequenas dimensões, teria capacidade de pouco mais de 113 metros cúbicos. A França, desde os primeiros voos em seu território de aeróstatos, isto é, de veículos mais leves do que o ar, ainda no séculos XVIII, fez do balão presença constante. Ganhava-se os céus, todavia, durante quase dois séculos, a evolução de aeróstatos pouco avançou na questão de sua dirigibilidade. A capacidade de conduzi-los e de manobrá-los era restrita. O Sr. Santos Dumont, em meio ao crescente interesse e a popularidade dos balões buscou, à sua maneira, caminhos novos. Os primeiros anos de nosso engenheiro junto às oficinas e metalurgias francesas são acompanhadas, muitas vezes, da expressão 'não dará certo', não funcionará'. As dimensões do Balão Brasil incomodavam os fabricantes de balões, disseram-lhe, 'algo tão pequeno jamais voará'.

(continua)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Santos Dumont (6): experiências com os motores

Santos Dumont (6): experiências com os motores

O velho triciclo que tanto o fascinava serviu às suas experimentações, por exemplo, o Sr. Santos Dumont desejava avaliar o comportamento de motores de combustão interna no ar. Motores, até então, serviam aos veículos, eram montados para rodar sobre a terra, mas como os mesmos motores se comportariam em veículos suspensos no ar. Serviu-se do seu triciclo para tanto, levou-o a uma área arborizada de Paris e tratou de suspender o seu triciclo com a ajuda de uma árvore. Será desta forma, pairando alguns centímetros de chão, que o Sr. Santos Dumont colocou o seu veículo para funcionar curioso de como motores de combustão comportavam-se no ar. Haveria oscilação, trepidação? Percebeu que não, decidiu-se, a partir desta aventura, a levar o motor feito para rodar para os ares. Nada mais seria como antes.

(continua)

domingo, 14 de agosto de 2016

Santos Dumont (5): a Paris de engenheiros e inventores

Santos Dumont (5): a Paris de engenheiros e inventores

A Paris  descoberta pelo Sr. Dumont, no final do século XIX, trazia as marcas de um grande Império. Senhora de colônias, crente e orgulhosa de uma missão civilizadora, dedicada às artes mecânicas, literárias, pictóricas, nada escapava ao olhar de uma cidade que ambicionava inventar o futuro. Júlio Verne soube, como poucos, fotografar e representar os sonhos franceses em sua ficção científica. 
Imagine-se agora, o jovem e criativo Santos Dumont em Paris, a ilustração traz um triciclo a motor, que, a partir dos últimos anos do século XIX foram populares na capital francesa. Uma vez mais o motor a combustão no caminho de nosso criador. A razão da ilustração, os triciclos eram vendidos com anúncio de que eram velozes, o que havia de mais rápido naqueles dias. O Sr. Santos Dumont prontamente adquiriu o seu e promoveu a primeira corrida de triciclos de que se tem notícias. Alugou área para a realização da concorrida prova e instituiu prêmios.

(continua)



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Santos Dumont (4): o balão Brasil

Santos Dumont (4): o balão Brasil

De estudante a inventor, de homem devotado à pesquisa e à experimentação ao título de pai da aviação, esta é a sua trajetória em terras brasileiras e francesas. O percurso de nosso engenheiro nos ares começa com um balão de tipo esférico, usual naqueles dias. Balão de seis metros de diâmetro e carregado de hidrogênio, realizou o seu voo inaugural no dia 4 de Julho de 1898, foi batizado por Santos Dumont com o nome de Brasil. Serviu como escola para o nosso inventor, o Brasil realizou mais de 200 ascensões nos meses seguintes. O Brasil permitiu o estudo de correntes de ar, dinâmica de voo e aerodinâmica. Santos Dumont aprendia a voar.

(continua)



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Santos Dumont (3): filho de engenheiro

Santos Dumont (3): filho de engenheiro

A arte mecânica cedo fez parte da vida do jovem Dumont, filho de engenheiro, acompanhou o pai em viagens no Brasil e no exterior. Aliás, a descoberta do motor a combustão interna teve lugar  em uma dessas viagens. Estavam, pai e filho, na cidade de Paris, provavelmente em 1890, quando visitaram exposição que exibia o referido motor.

(continua)

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Santos Dumont (2): o motor de combustão interna

Santos Dumont (2): o motor de combustão interna

O homem de gênio sabe valer-se daquilo que tem ao alcance de suas mãos. O motor de combustão interna transformava a sociedade, tratava-se de um motor pequeno se comparado aos movidos a vapor e aos elétricos, no entanto, se era menor revelou-se mais forte. O chamado motor de combustão externa, a partir de agora, veria o seu uso ser reduzido.
Santos Dumont não era o seu inventor, todavia, percebeu que as dimensões menores e a capacidade de força do motor de combustão interna poderiam servir aos propósitos das máquinas de voar.
A percepção aguda e a disposição para criar eram a sua natureza.

(continua)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Olimpíada do Rio: o voo de Santos Dumont (1)

Olimpíada do Rio: o voo de Santos Dumont (1)

A festa de abertura contou, entre outros ricos momentos, com o Sr. Santos Dumont e o seu lindo 14 Bis. Desde jovem, aluno do antigo ensino primário, ao tempo em que falar de herói nacional confundia-se com ações governamentais, abracei Santos Dumont. Cresci e percebi que o Sr. Santos Dumont era merecedor da auréola de herói. Hoje, adulto, eu o defendo como brilhante e criativo inventor, meu herói, portanto.
Assistir à corrida da bela aeronave e vê-la alçar voo indo além do Estádio do Maracanã é rica e bela lembrança a respeito de um Brasil que trabalha e encanta. Sim, o ofício do Sr. Dumont encontrou em terras estrangeiras a chance e a oportunidade para criar as suas obras-primas de engenharia: balões, dirigíveis e aviões (mais pesado do que o ar). Será a sociedade francesa que o acolherá e o ajudará, aliás, a mesma sociedade francesa, que, anos depois, o perseguirá como criminoso ao saber que o Sr. Dumont rejeitava o uso militar de sua invenção. O Sr. Dumont é, verdadeiramente, alguém além do seu tempo - inventor - sonhou o avião e um mundo melhor.

(continua)