Crônicas de um pai: mais ou menos assim
Sentada levanta os braços para saudar e chamar pelo cuco que dorme dentro do seu relógio favorito. Passo seguinte esparrama-se no sofá e se põe a pedir tetê, ajeita-se e traz o pé calçado para junto de si para abrir o velcro com a ponta dos dedos. Volta-se para a claraboia que traz a luz da tarde e lhe permite ver a cor de outono das samambaias rendadas que aos poucos retornam do longo silêncio depois da partida de Dona Nassima. Na rua, cães latem e Maria ergue o dedo para chamar a atenção. Tetê pronto, mama como se o mundo estivesse ali. Saciada é hora de dançar a 'dona borboletinha'. Incansável deixa o sofá para buscar a caixa de brinquedos, sai de lá com uma boneca que precisa ser trocada e ninada. Onde estão os cremes? 'Abri abri'. Como se diz? 'por favor', lá vai ela lambuzar a mão de creme e encantar de aromas a sua boneca. A Goiaba descascada - e sem sementes - é devorada e os dedos pequenos são degustados como se de açúcar fossem. As chaves, as chaves. Ela aponta para as chaves da casa que estão penduradas na parede. Ela deseja sair, quer cuidar das plantas, sobretudo depois que ganhou um regador. Gato! Gato! há que se encontrar tempo para atravessar a rua e cumprimentar os gatos de nossa vizinha. Tantos são, mas há apenas um que atende aos seus rogos e chamados e se esparrama no chão para receber carinhos. Hora de voltar para casa, hora de descansar um pouco, de dormir um pouco. O sono a invade, Maria resiste o quanto pode. Procura repetir o seu repertório de reinações, mas aos poucos ela se rende. Encanta os travesseiros e as cobertas com a sua presença. Descanse meu amor, logo mais nos vemos, estaremos aqui.
sábado, 26 de maio de 2018
Crônicas de um pai: mais ou menos assim
Crônicas de um pai: 19 meses (19 + 9 = 28 meses)
Crônicas de um pai: 19 meses (19 + 9 = 28 meses)
Maria Luíza comemorou caminhando pela rua, subiu e desceu. Visitou vizinhas, ganhou elogios, despertou lembranças, despertou sorrisos e lágrimas. Decidiu não dormir o sono da beleza que faz no meio da tarde. 'Havia tanto a fazer, mamãe e papai estavam em casa'. Agora ela leva a sua tartaruga de rodas pela cozinha. O sono chega, mas ela resiste. Não demorará muito agora. Venha, vamos comemorar os seus 19 meses sonhando o domingo de reinações.
Maria Luíza comemorou caminhando pela rua, subiu e desceu. Visitou vizinhas, ganhou elogios, despertou lembranças, despertou sorrisos e lágrimas. Decidiu não dormir o sono da beleza que faz no meio da tarde. 'Havia tanto a fazer, mamãe e papai estavam em casa'. Agora ela leva a sua tartaruga de rodas pela cozinha. O sono chega, mas ela resiste. Não demorará muito agora. Venha, vamos comemorar os seus 19 meses sonhando o domingo de reinações.
Crônicas de um pai: Princesa Odete e os cisnes
Crônicas de um pai: Princesa Odete e os cisnes
Aos poucos ela abre o livro, sabe a página que lhe interessa. Conhece algo da história, eu e Vany mudamos as partes que nos pareceram impróprias para a sua idade. (Ou melhor, há histórias que parecem não servir para nenhuma idade: quem quer ouvir do lobo no caldeirão?). Cuidados redobrados, Maria Luíza chama por Odete. Não é um nome simples, mas ele já está na boca de nossa filha. Nome inteiro: Odete odete odete.
Hoje, Odete anda cansada de ser um cisne e está decidida a nos visitar de tão alegre, ela quer conhecer a menina que chama pelo seu nome.
Aos poucos ela abre o livro, sabe a página que lhe interessa. Conhece algo da história, eu e Vany mudamos as partes que nos pareceram impróprias para a sua idade. (Ou melhor, há histórias que parecem não servir para nenhuma idade: quem quer ouvir do lobo no caldeirão?). Cuidados redobrados, Maria Luíza chama por Odete. Não é um nome simples, mas ele já está na boca de nossa filha. Nome inteiro: Odete odete odete.
Hoje, Odete anda cansada de ser um cisne e está decidida a nos visitar de tão alegre, ela quer conhecer a menina que chama pelo seu nome.
quinta-feira, 24 de maio de 2018
Crônicas de um pai: confusão
Crônicas de um pai: confusão
O exercício da linguagem a coloca frente a desafios como entender a diferença entre papai e papel, arara e aranha e por aí vai. As semelhanças a confundem e a ajudam a misturar alhos e bugalhos em suas reinações luluzianas. Nos primeiros dias de vida ela tinha o cenho franzido, nas semanas seguintes a dúvida deu lugar à satisfação, deixou o franzido pela boca sem dentes e, agora, ri alegre a sua boca cheia de dentes.
Adora água, adora sempre água, se faz calor ou está frio lá vai ela brincar com a água. Ganhou mesmo um regador de plantas e prometeu com o dedo para o alto que há de recuperar as plantas que um dia floresceram em sua casa. Não tenho dúvidas disso, se alguém pode fazer o movimento se inverter é o nosso pequeno milagre.
O exercício da linguagem a coloca frente a desafios como entender a diferença entre papai e papel, arara e aranha e por aí vai. As semelhanças a confundem e a ajudam a misturar alhos e bugalhos em suas reinações luluzianas. Nos primeiros dias de vida ela tinha o cenho franzido, nas semanas seguintes a dúvida deu lugar à satisfação, deixou o franzido pela boca sem dentes e, agora, ri alegre a sua boca cheia de dentes.
Adora água, adora sempre água, se faz calor ou está frio lá vai ela brincar com a água. Ganhou mesmo um regador de plantas e prometeu com o dedo para o alto que há de recuperar as plantas que um dia floresceram em sua casa. Não tenho dúvidas disso, se alguém pode fazer o movimento se inverter é o nosso pequeno milagre.
Crônicas de um pai: a troca de fraldas
Crônicas de um pai: a troca de fraldas
Tantas vezes foi trocada que decidiu brincar de trocar fraldas. Após o jantar, pontualmente, Maria Luíza busca pelo seu trocador. Ela o abre e o estende sobre o chão da cozinha. Busca pelo lenço umedecido e pela pomada contra assaduras, feito isso traz o boneco que vai trocar. Ficam ali, mãe e filha, digo, boneco, durante longos minutos. Movimentos lentos, afagos e beijos. Não aguento tanto mimo.
Tantas vezes foi trocada que decidiu brincar de trocar fraldas. Após o jantar, pontualmente, Maria Luíza busca pelo seu trocador. Ela o abre e o estende sobre o chão da cozinha. Busca pelo lenço umedecido e pela pomada contra assaduras, feito isso traz o boneco que vai trocar. Ficam ali, mãe e filha, digo, boneco, durante longos minutos. Movimentos lentos, afagos e beijos. Não aguento tanto mimo.
quarta-feira, 23 de maio de 2018
Crônicas de um pai: papai e papel
Crônicas de um pai: papai e papel
As últimas horas foram de enormes mudanças. Desde que nasceu conversamos com nossa filha, falamos o que são as coisas que estão ao seu redor. Depois de meses nos dando ouvidos e após longos treinos vocais ela começou a responder. Diverte-se repetindo palavra que acaba de ouvir, diverte-se assim. Ontem, por exemplo, ficou a chamar pelo sofá no qual estava sentada. A brincadeira com a aranha que subia pelas paredes arrancou aranhas e aranhas que depois confundiram-se com araras e araras. Ela deu um salto nas últimas horas, encontrou atalhos para dizer o que sabe. A prece foi reformulada: mãos postas foi direto para o amém!
As últimas horas foram de enormes mudanças. Desde que nasceu conversamos com nossa filha, falamos o que são as coisas que estão ao seu redor. Depois de meses nos dando ouvidos e após longos treinos vocais ela começou a responder. Diverte-se repetindo palavra que acaba de ouvir, diverte-se assim. Ontem, por exemplo, ficou a chamar pelo sofá no qual estava sentada. A brincadeira com a aranha que subia pelas paredes arrancou aranhas e aranhas que depois confundiram-se com araras e araras. Ela deu um salto nas últimas horas, encontrou atalhos para dizer o que sabe. A prece foi reformulada: mãos postas foi direto para o amém!
segunda-feira, 21 de maio de 2018
Crônicas de um pai: ciúmes
Crônicas de um pai: ciúmes
Qualquer bicho de pelúcia ou boneco ganha mais afagos do que eu, ganha mais cafuné, ganha mais beijos, mais cuidados e por aí vai. Maria cresce e a cada dia mostra ao que veio, cuidadosa com os seus pequenos bonecos, brinca de menina e ensaia os seus passos. Vivo a me perguntar como se planta a confiança na alma de uma criança, não a confiança nascida da arrogância e da prepotência, mas aquela outra criada em meio ao jardim segura de que a rosa dará flor.
Qualquer bicho de pelúcia ou boneco ganha mais afagos do que eu, ganha mais cafuné, ganha mais beijos, mais cuidados e por aí vai. Maria cresce e a cada dia mostra ao que veio, cuidadosa com os seus pequenos bonecos, brinca de menina e ensaia os seus passos. Vivo a me perguntar como se planta a confiança na alma de uma criança, não a confiança nascida da arrogância e da prepotência, mas aquela outra criada em meio ao jardim segura de que a rosa dará flor.
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